te esqueci quando transformei teu nome em palavra

24 de abril de 2014 § 1 comentário

 

 

ainda procuro teu rosto nas fotos alheias
feito mães tentando reconhecer o filho
/o corpo do filho/
no meio d’outros tantos outros
/corpos mortos/

do que temos /todos/ em comum arrisco
não a dificuldade em nos fazermos existir não
a inércia matinal a fisgada no fim do domingo
temos o lugar inicial a ponte
pro resto da vida: somos filhos pedaços de algo.

portanto procuro teu rosto nas fotos alheias e espero não encontrá-lo pero não paro: eu
alinho tua pele a barba
com a do garoto vestindo vermelho na foto de ’78 (nem eu nem você existíamos -
talvez teu pai minha mãe, talvez o rio sobre o qual não ponte ainda erguida fora,
talvez o garoto de vermelho que, em mil novecentos e setenta e oito nos acena,
de lá,
e eu te busco,
daqui,
como que colhendo algodão com os dedos sempre úmidos
como que tocando- com alfinetes invertidos nas mãos – a pele da vida)

te esqueci quando transformei teu nome em palavra.
e isso foi ontem na padaria: no lugar do merci madame na fila do pão vazou cuspi /desculpe/ teu nome: onomatopeia da memória: farelo sonoro: guache aguada: saliva seca: palavra troco.

se no começo el’era prece mantra ladainha, hoj’esqueço num canto da boca feito fiapo de laranj’azeda.

31 de março de 2014 § Deixe um comentário

 

 

trepo sorrindo
na goiabeira

 

 

 

saint-lazare

20 de novembro de 2013 § 1 comentário

é seis de novembro e peguei o trem noturno de volta pra casa. do banco de trás, ouço: “oi. ligo pra dizer que, que hoje lembrei de você. vi, no chão das escadarias da Saint-Lazare, cabelos castanhos (como os seus). empoeirados, mas como os seus. pisavam – em você, de certa forma – com as solas pretas e sujas d’água da chuva que lá fora pendia. pisavam e aquilo me doía. era quase possível (te digo) ouvir o estalar dos fios (talvez teus), secos & mornos, como o tocar tactilíneo das patas de um percevejo sob uma vitória-régia. eu ouvia. cada milimétrico sonar, e todos entravam como ferpas nos poros da minha mão esquerda. sim. vi também – e isso faz dois minutos – um poema escrito na cara da jeune fille esperando comigo o trem. o poema, e ela, quase que tombavam nos trilhos. me contive (te digo de novo) que me segurei para não empurrá-la e 1) ter um poema 2) ser cortada por um fato. mas isso não importa: a vida é mais que corpo (mas o coração – ele é feito de carne, aceite).” a voz vinda do teto avisa que chegou, minha estação. desço deixando no chão e grudadas nas janelas do trem as palavras de um telefonema que não sei se de fato ouvi. saio, agora: o céu é um lençol-azul-quasi‘nfantil. é dessa vez o meu telefone que toca, e atendo uma ligação vazia: no momento de desligar, a mesma voz que ouvi a pouco no trem me pergunta, tranquila & segura: “te incomoda? te incomoda, o meu silêncio?”

29 de outubro de 2013 § 1 comentário

nuana

 

lendo ana c.
em voz alta
na tarde burguesa

(a penugem
do lençol
eriça)

murmura
de leve
(nos fones)
algum jazz assim,
american jazz.
ella
me faz tão bem

do movimento

8 de outubro de 2013 § 1 comentário

[escrevi esse texto segundos depois de ver, no ano passado, Pina (Wim Wenders), o doc. sobre a Pina Bausch. nunca achei lugar pra postá-lo, mas depois de ver o trailer dessa dança-performance, HOLD, a estrear em 2014, senti que serviria e, bon, voilà: espero que vos sirva, no sentido que for, no movimento que der]


Se estabelece o movimento muito antes da sua concretização no corpo. Se estabelece o movimento antes dele próprio. O movimento corre. Se dá. O movimento possível, fluído. O movimento atua no ar como o ar no corpo que se. O movimento possível, factível, movimentário. O movimento. “Continuem procurando”. O movimento, antes de existir, não flutua, não espera, não encontra. O movimento antes de existir não é nada se não movimento não usado, manipulado, movimentado. Os dedos da escrita não são capazes de se movimentar na velocidade do movimento-movimento. “Aí vem a dança, que insinua”. O movimento. O fluxo. O fluxo físico e o fluxo da escrita se dão no ar. O movimento e a busca continuam. O lugar não se sabe. O que não se sabe. Continua a busca dentro do movimento que é a vida. O movimento da vida dentro do movimento que se usa da vida. O movimento. O movimento. O movimento. A vida é um movimento dentro de um. A vida é um movimento por si e usa desse movimento iniciário para a construção de outros movimentos, que darão vida a outros (movimentos) ainda não usados, movimentados. A música flui. Não, a música corre. Não, a música se dá. Não, a música. A música como guia cego. A música como um guia cego em meio a luz que é o nada que é tudo. Não. A música é quando silêncio. O silêncio é quando música. Não. A música como guia cego em movimentos instintivos. Movimentos instintivamente artísticos, possíveis, factíveis. Movimentos do corpo no espaço que é movimento em estado inerte. Inércia zero. Inércia zero que é aberta ao movimento iniciário que promove outros movimentos. Inércia um. Dois. Três. Inércia anumeral, descentral, inércia que corre. Não. Inércia. O movimento perfeita-se quando, dentro de um outro, não faz nada se não caminhos possíveis, livres, harmônicos. Caminhos de corpo. Caminhos de ares. Caminhos dentro de um movimento já existente. Que a dança nos salve em tempos de inércia. Que a dança nos tire da dança guiada, guiada por luzes e cores no chão. “Dance, dance, dance. Ou estaremos perdidos”. Dance. Que de dentro venham os movimentos reais, possíveis, artísticos, factíveis. Que de dentro venham os movimentos que merecem ocupar o espaço vazio. Que o vazio não seja ocupado por nada, e que o vazio não seja ocupado por tudos que são nadas. Que o espaço vazio seja ocupado por vazios que promovam não-vazios. E se não, que promova um vazio real, possível, factível, artístico. Dance.

fui uma criança doente de passado

7 de outubro de 2013 § Deixe um comentário

vê-se: back then, o que me era contemporâneo era já sépio, filtrado pelas lentes de uma Holga sem filme por revelar. portanto doente por não conseguir fixar o corpo (mesmo que infantil) no tempo presente. a poeira, os ácaros antepassados, atacavam minha bronquite crônica (até ela encharcada de tempo). de modo que, hoje, vejo: fui uma criança doente de passado.

Ciça

7 de agosto de 2013 § 2 Comentários

a primeira vez que ouvi um poema foi na voz de Cecília. não a Meireles, mas a vizinha lá de casa, Ciça. foi na cozinha cheirando a chouriço e salsinha. o corpo mole e grande de Ciça, cheiroso de cebola e creme para pentear, se movimentava no rodar dos quadris. foi depois de refogar o feijão, e com a prosódia das panelas, que ela disse: o mundo gira/ com a gente dentro/ moleque – e fechou com a tampa de pedra. eu senti aquilo na língua e num fio quase solto do meu braço esquerdo. de modo que sempre associo poesia à comida, cebolinha, e vida em vapor que saía das panelas prosaicas de dona Ciça, não a Meireles, mas a vizinha lá de casa.

  • Danilo Lovisi

  • Vapor

  • olhares

    • 4,047 viram
  • lovisi.danilo@gmail.com

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.